quinta-feira, março 14, 2013

Está tarde. Estar. Um verbo curioso, visto que, a esta altura, ser ou não ser deixa de ser a questão e o enigma torna-se 'quem você é'. Talvez isso explique a falta de sono. Talvez compense as horas super faturadas de fingimento e pretensão. Talvez não. Sabemos que não há esforço que chegue aos pés de um homem insone lutando por sua vida. Confuso? Imagine virar e revirar e ouvir cada vez mais alto as vozes em sua cabeça dizendo que já passou da hora, que ainda estão ali, e que tal mais um drink? Um drink. Sei. Ninguém acredita quando digo que parei. Posso escrever na testa; "saí dessa vida" e tudo que dirão serão deboches e risos. 

A pior parte é reler. Dizem que se você se forçar ao passado, eventualmente, voltará a ele. Kaufman discorda. Ele prefere apagar as memórias. Eu não. Talvez, mas não agora. Fico revendo e repensando e a cada vez mudo os personagens de lugar, as falas e as coisas ao redor. Os gestos ficam. Como aquele beijo hoje cedo. Pouco, mas perfeito. Engraçado pensar que antes disso estávamos envolvidos pelo ranço do que poderia ter sido uma bela distração (por falta de termo melhor). Talvez a 'idade' esteja finalmente surtindo efeito. Pode ser a insomnia. Mesmo assim não entendo. Por que? Faz mais de uma semana e os flashes vão e vem e só me sinto pior cada vez que lembro daquilo. A mudez, a burrice. Olhar nos olhos deles e ver que estavam ali apenas pela diversão, pelo próprio prazer. Não posso jugá-los. Neste jogo, a única regra é passar por cima; errados aqueles que se iludem com apertos leves e cumprimentos frios. Não se olha mais nos olhos nesta cidade. Não há porquê. O lixo é igual seja no chão ou na altura dos ombros... por que se incomodar? Lhes direi o seguinte: há não muito tempo, certamente diria que estou no alto de um monte observando todos vocês escalando lentamente para o que eu já constatei ser uma grande perda de tempo - afinal, lá de cima só se vê o céu, as nuvens e a sua propria insignificância, logo; qual o motivo disso tudo? Salto. E enquanto passeio pelos seus corpos, admiro o esforço em subir tão rápido ao mesmo tempo que rio por dentro da ingenuidade que os levou a pensar que lá, no alto, é melhor. Pobres de nós. Pessoas se amontoam tão facilmente. Está tarde. Ninguém vai dormir esta noite. 

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