terça-feira, setembro 25, 2007

Como distrair-se das questões do dia-a-dia.

15 horas da tarde de terça feira. Oito de setembro de 1995.
Faz dez minutos que aquela moça simpática da roupa branca deixou o meu quarto. Ela me trouxe uma apetitosa refeição de ovos com bacon e um pão francês. Nunca fui acostumado a comer este tipo de coisa lá no meu país. Perdi as contas de quanto tempo faz desde que deixei o Brasil e vim parar neste lugar bonito em que estou agora. Em descrição seria algo mais ou menos assim... Uma casa grande com muitos quartos, todos com vista para o mar, um jardim enorme, gigantesco eu diria, com muitos animais, pássaros, árvores, bancos e praças e etc. Tudo muito bonito e cercado por muita água. Acho até que isto vem a ser uma ilha afastada do mundo moderno que eu conheci.

Enfim, aquela moça de branco, Corline, me disse que eu não iria permanecer aqui por muito tempo. De um certo modo, fiquei triste com esta notícia. Não sei como vim parar aqui, mas sei que não quero voltar. Com certeza este lugar é bem melhor do que aquele inferno que eu vivia. Não gosto de lembrar muito desta época da minha vida, mas, fazer o quê?
Eu morava na Rua 134 em Freitópolis. Um lugar aparentemente tranqüilo de tão deserto e também aparentemente bom de viver. É claro que era deserto porque ninguém tinha coragem de ir até lá e, sendo assim, é óbvio que não era tão bom de viver. De qualquer maneira, passei a vida toda naquele lugar; eu e mais cinco famílias morando num mesmo prédio. O prédio Santa Rosa era o único em todo o lugar e quando digo isso quero dizer que não havia mais um centímetro de concreto naquela rua. Eram apenas o céu, o prédio e a sorte.


Agora esqueça tudo isso que eu falei. Nada disso importa ou faz o menor sentido. Nada disso é verdade. A verdade é que eu fico imaginando estas coisas bonitas e dramáticas para disfarçar um único drama que de bonito não tem nada: minha própria vida. Afinal, o que vale uma vida cheia de problemas emocionais, crimes contra a moral e os bons costumes, auto-flagelamento, drogas e muitos outros problemas? Nada. Sim, não vale nada. Deve ser por isso que eu estou aqui. Aliás, é por isso mesmo que eu estou aqui, sentado, esperando a Corline voltar com seu uniforme branco, que de branco só tem a fama. Ah, Corline, sabes muito bem que não certo uma pessoa tão suja usar uma cor tão pura. As pessoas comentam pelos corredores todos os seus atos inimagináveis e tudo que dizem soa como a mais pura concretização de insanidade. De fato, este é o lugar mais apropriado para se cometer uma insanidade. Qualquer tipo de insanidade é bem vindo. Temos tudo que precisamos para sermos loucos. Os mais loucos depravados esquecidos por Deus neste lugar maravilhoso que Ele mesmo criou. Temos paredes pintadas com sangue de animais como passarinhos, ratos, morcegos, esquilos, coelhos... Todos os tipos de bichos imagináveis e possíveis numa ilha como esta. O interessante é que cada animal tem uma característica única no sangue, como uma tonalidade de cor diferente. Fica lindo escrever ‘’morte aos que não estão sãos’’ com sangue de morcego, coelho, gato, rato, esquilo e pássaro respectivamente. A depender da luz da lua, a frase fica parecendo um letreiro luminoso daqueles motéis de beira de estrada. Lindo. Onde eu estava? Ah, sim... Eu sei muito bem o tipo de coisas que essa maluca de uniforme branco faz conosco. Dizem no refeitório que ela tira nossa roupa enquanto dormimos e faz sexo conosco. Mas isso é difícil de acreditar porque ninguém consegue ficar acordado à noite. Eles dosam nossos remédios muito bem. Aliás, essa é uma das funções da Corline. Ela é a diretora do setor de remédios daqui, tudo passa pelas suas mãos finas de pele macia e branca. Aquelas unhas pintadas de vermelho escuro bem ao estilo ‘enfermeira gostosa no comando’ contam cada pílula que nós, internos, devemos tomar.

Rezo todos os dias para que ela erre, para mais ou para menos, a minha dosagem e que eu possa ficar consciente o suficiente para saber o que ela tanto faz enquanto nós dormimos. A dúvida paira sobre ela porque ela é a única que tem acesso às chaves dos dormitórios, e é a única que está aqui desde o começo. Acho até que ela tem um caso com o dono deste lugar.

De qualquer forma, esqueçam tudo que eu disse sobre mim, sobre os remédios, sobre a Corline, sobre a ilha, sobre o Santa Rosa. Esqueçam tudo. Nada disso importa quando você está prestes a pular de uma janela do vigésimo andar de um prédio em chamas, nada disso importa quando você sofre um acidente de carro e acorda dias, meses, anos depois, sem saber o que houve com a sua família, e principalmente, nada disso importa quando você perde alguém porque daria a vida. Vale muito mais à pena imaginar um mundo onde enfermeiras abusam sexualmente de deficientes mentais, um mundo onde esses mesmos deficientes são a chave para a evolução da espécie humana porque na verdade estes poucos privilegiados são os verdadeiros seres perfeitos desta raça mesquinha e egoísta que acredita ter a verdade em mãos ao invés de buscar conhecer todas as outras possibilidades. Esqueça tudo que você sabe sobre matemática porque nenhum número será igual ou diferente de outro ao ponto de explicar a possibilidade de haver alguém superior a este plano que tem um completo controle sobre os destinos de todos nós. Esqueça o que sabe sobre história, geografia. Escolas são para os fracos.

Esqueça tudo que leu até agora. Tudo isso será apagado da sua memória. Você certamente tomará alguns remédios para dormir e não se lembrará de nada disso pela manhã. Não importa como, nem por que, mas sim aonde eu quero chegar com tudo isso: As pessoas são loucas, meu filho, elas usam você, abusam de você até não poderem mais. Escrevem coisas ao seu respeito, fazem músicas, pintam quadros, vestem roupas para poderem tirá-las e depois fazer mais seres humanos imperfeitos e inaptos para sobrevivência em grupo, uma vez que estes começam a matar seus semelhantes. É isso meus amigos, este é o mundo lá fora.

Nesta ilha eu aprendi muito sobre os seres humanos. Mas esqueça tudo que já leu até aqui para poder compreender o que eu vou dizer: É necessário estar muito são de corpo e mente para deixar uma marca na história, caso contrário, farão com você o que fizeram comigo; internato. Por exemplo, estou escrevendo desde as 15 horas do dia 8 de setembro de 1995 e enquanto faço isso observo vários barcos passando na minha frente com polvos gigantes abraçando-os e engolindo-os para as profundezas do oceano. As pessoas ao meu redor brincam alegremente com bolas de fogo imaginárias e as jogam umas nas outras e gritam escandalosamente quando imaginam terem sido atingidas por estas coisas. Esqueça tudo isso. Nada que eu diga deve ser lembrado. Eu sou apenas mais interno da casa de recuperação para viciados em drogas pesadas de um lugar não muito longe da sua casa, com alguns talentos ortográficos e uma tara especial por uma certa enfermeira com olhos tão grandes quanto as lentes de um caleidoscópio. Esqueça cada detalhe sobre os meus momentos, dias, devaneios. Eles não significam nada para você. Não é? Deve ser. Há de ser... Caso contrário, comece a imaginar um mundo muito pior do que o descrito ao longo dessas linhas tremidas. Aliás, não perca seu tempo com isso. Esqueça tudo que leu até aqui, masturbe-se, tenha uma boa noite e vá dormir.

3 comentários:

Unknown disse...

Muito bom. E nem vou criticar.

Clarissa Oliveira disse...

me fez pensar.

Isadora Sodré disse...

Muito bom, mas nunca mais me mande ler essas coisas.
Mexeu na minha ferida que eu tinha esquecido há tanto tempo.


beijos, sinho