quinta-feira, maio 31, 2007

Alex Grey podia morrer, então.

Como se livrar de algo que não existe? Isso abalava a cabeça de Alex, e a minha também.
Nossa relação nunca foi das melhores. Houveram brigas, trapaças, traições e tudo mais que uma relação de amor e ódio tem direito. Era um relacionamento perfeito.
Alex gostava de sair pelas ruas, encher a cara, cometer crimes, ter overdoses. Eu gostava de ficar em casa, não tomar banho e ver televisão. Um típico cidadão exemplar.

Neste momento, tudo começa a fazer sentido...
Alex é mais do que uma pessoa mal-compreendida, e não encaixável. Se é que isso existe.
Alex Grey vai além da compreensão comum das pessoas, vai além do que é legível. Alex Grey não se encaixa. Nunca leu bons livros, não teve bons empregos, não teve grandes amores... Nada, nada que uma pessoa normal sequer já tenha vivido, nada disso fazia parte da vida de Alex Grey. Comigo era diferente. Não preciso explicar.
Casaco de couro preto, calças justas, camisas sujas, cabelo charmosamente mal arrumado... Esse era eu. Aliás, este era Alex Grey. Aliás, esta era Alex Grey. Um ser inexorável, algo de outro plano astral, algo imaginário. Não. Alex era bem real... Apesar de nunca entender direito o que era aquilo, eu sabia muito bem que aquilo realmente estava acontecendo. Afinal, se não fosse real, como eu conseguiria explicar aqueles hematomas no corpo de Elise? Não, não era imaginação.

Alex tomava pílulas para dormir. Eu sabia disso porque sempre encontrava frascos vazios na lixeira da cozinha. Nunca entendi direito porque estavam lá, na cozinha, mas como muita coisa nessa história, isso também não era importante, isso também não fazia sentido.
O inverno já havia se anunciado e nem eu, nem Alex estávamos preparados para isso. Se fosse pelo andar da carruagem, haha, não iríamos durar muito. Cada suspiro equivalia a muito oxigênio desperdiçado. Nós gastávamos muito com besteiras. Alex tinha um vício estranho por cigarros sabor menta e eu adorava Coca-Cola. Isso sem contar as coisas ilícitas.

Já era dia e o sol parecia estar de folga... Claro que isso ajudou para que tudo ficasse mais escuro, ou cinza, tanto faz. Alex não gostava do Sol, ele dizia que iria até lá e apagar todo aquele fogo com cuspe. Alex não gostava de praias, não gostava de nada que envolvesse muita gente ou barulho, ou água. Ela detestava o jeito como as pessoas olhavam as marcas no corpo (marcas deixadas pela Elise, como sempre). Isso era o principal motivo de nunca vestir nada que mostrasse mais do que o pescoço e as mãos. Rosto não conta. Alex não ia muito ao cabeleleiro, não precisava, cortava seu próprio cabelo. Ele tinha boas mãos.

Alex também detestava ser encarada. Detestava o jeito que os homens o chamavam de fracote e por isso socou muitos por aí. É difícil de sustentar a tese de que Alex Grey era um bom partido. Não se importava com nada. Alex Grey era mesmo uma pessoa estranha, com um ego do tamanho do mundo todo. E é do conhecimento de todos que esse tipo de gente vive em prol do próprio umbigo. Alex não fugia à regra. Ninguém conseguia conversar com ele porque ele não se interessava por nada que fosse supostamente inferior às suas capacidades. Alex Grey era um boçal. Alex era, com certeza, a mulher mais arrogante de todos os tempos. Eu não sei muito bem como fui suportar aquele maldito ego. Não vem ao caso.

Alex Grey foi encontrado morto em seu apartamento, no subúrbio, trajando uma calça jeans, um tênis allstar verde, uma camisa cor-de-vômito do Sonic Youth. Ao seu lado haviam seringas, pó, álcool, ecstasy, chocolate e pão mofado. Pelo cheiro, parecia estar ali há mais de uma semana. Quem olhava profundamente nos olhos inertes daquele corpo perdia o controle sobre suas atitudes e sentia-se livre para cometer qualquer loucura, para bem, ou para mal. Alex Grey virou notícia novamente, graças a uma gravação praticamente inaudível aos leigos, mas muito reveladora para os psiquiatras de plantão.


Se alguém um dia resolvesse escrever algo sobre Alex Grey, esse alguém seria eu. Mas eu, ah, eu não podia fazer isso; pois Alex Grey era tão íntimo que ia ia além das minhas compreensões e isso pesaria muito no resultado final do tal livro.
Imagine que eu nunca conseguiria completar as frases sem pensar no que Alex pensaria, eu não conseguiria contar suas trapaças sem derramar uma lágrima, eu não tinha culhões para isso. Isso era um trabalho para Alex, e infelizmente, Alex estava morta. A parte boa é que com Alex fora do caminho, eu poderia fazer o que quisesse agora. Não, não, não. Eu não era nada sem aquele maldito. Isso porque Alex Grey estava além da compreensão dos psiquiatras, além de uma mulher bonito, ou de um homem atraente; Alex era mais do que o Macho-Alfa, era mais do que a Fêmea Perfeita, Alex não era só um homem de negócios, não era uma mulher sensual de vida feita, Alex não era um pai de família, não era uma senhora preocupada com o futuro de seus filhos. Alex não era deste mundo. Alex não era tão real quanto parecia. E eu sabia disso o tempo todo, porque no fundo, no fundo, eu sabia muito bem que era Alex que aparecia no meu lugar quando eu olhava o espelho. Era Alex que tinha o controle quando eu sentia medo e não sabia o que fazer. Alex estava lá, o tempo todo ao meu lado, dando todo o prazer a Elise e recebendo-o de volta por mim, Alex era a minha vida, minha alma, minha sorte, minha morte. Alex era o meu medo de voltar para casa no escuro pensando em como fugir dos assaltantes sem levar uma bala 9mm pelo meio da testa. Alex era o meu maior problema.

Ele que recolhia o pagamento dos inquilinos que eu tinha, ele que entendia os problemas de física na escola. Ela que me fez conseguir todas as garotas que eu sempre quis, porque garotas sabem o que garotas querem. Alex era a coisa mais importante da minha vida, era o meu porto-seguro, meu ódio fulminante e descarado que não tinha medo de desafiar a Deus e que praguejava aos sete ventos com tanta força que seria até blasfêmia dizer que Alex Grey era menor do que o próprio Satanás. Mas você não vai entender, delegado, você não vai entender o que eu quis dizer durante essas cinco horas de depoimento, não vai entender porque só quem esteve sob o efeito de Alex Grey é que sabe o que senti-se rodeado de monstros, prédios destruídos e coisas estranhas. Só quem teve a casa invadida pela escuridão e pela frieza é que pode entender o que significava acender cigarros apenas para esquentar os dedos. E você pode me levar preso se quiser, porque minha vida não é tão interessante anyway. Eu não tenho atrativos, eu não tenho herdeiros, não tenho nada que vá me fazer falta dentro de uma cela. Só me incomodo com essa história de ter hora para acordar e hora para dormir, comer, tomar banho. Mas de resto, pode me prender, Sr. Delegado.

Sinceramente? Eu não tenho mais nada a perder, porque junto com Alex Grey, foi-se tudo que eu mais gostava na vida. O meu medo da morte.

2 comentários:

nai disse...

você é a parte masculina do Alex ? quem é a femenina?
Por que ele morreu ? Você teria futuro, garoto.

;*

Ludmila Rodrigues disse...

e acabou-se alex grey. :~
gostei muito, de todos os capítulos :)