domingo, março 21, 2010

Aquele barulho maldito não me deixou dormir e por conta disso, não consegui parar de pensar no que me aguardava pela frente. O futuro, meus caros, pareceu sujo como um quarto de hotel barato nos subúrbios de Salvador. Além da minha própria desgraça, lembro dos olhos famintos que seguiam ao meu lado. Lembro do velho que lutou contra seu próprio filho para conseguir comida. Acho que vi demais em tão pouco tempo, e de fato, foi isso que aconteceu. Mas vocês nunca entenderiam mesmo, apenas quem esteve lá sabe qual a sensação de ver o futuro. Você admira a beira do precipício por mais tempo do que a queda em si, isso é um fato.
Mais tarde, na cafeteria; percebi uma moça que olhava triste para o copo cheio de café preto – daqueles que bóiam uma espécie de nuvem (isso mesmo) de óleo dentro da xícara – como se soubesse que não importava a quantidade de açúcar no copo, sua vida não seria doce nunca mais, nem o café teria o sabor desejado, como de praxe. Era uma cena deplorável: a verdadeira constatação da miséria. Tudo isso diante de mim, na forma de uma bela jovem de cabelos compridos, mas nem tantos, dentes tímidos e dedos magros.
Percebi que olhava para mim como se quisesse que eu perguntasse algo. Encarei aquilo com a sutileza de um elefante dançando balé. Sejamos honestos; não é porque algo te chama atenção que você deve ir atrás. É até burrice. Tome por exemplo os... deixem pra lá. Segui para casa. No caminho passei pelo puteiro que meu pai ia na minha infância. Ele dizia que um homem só se sentia completo com suas putas. Velho louco, sempre falando bobagens. Morreu do jeito que merecia.

(missing piece)
Foram longas as noites sem dormir antes que eu tomasse alguma atitude sobre o acontecido. Confesso que a imagem daquela mulher ficou na minha mente durante um tempo. Apesar de tudo eu faria umas boas safadezas com aquela vadia mórbida.

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