quinta-feira, fevereiro 25, 2010

...um barulho infernal. raramente ouve-se algo assim - pelo menos aonde vivo. uma espécie de vibração decorrente de outro barulho (este, ainda mais alto do que o barulho em questão, porém inaudível para o que vos fala) que faz tudo vibrar. e segue vibrando noite afora, interrompendo meu sono, incomodando meus pensamentos, vibrando em tempos desconexos como um trompetista ruim. eis que me movo meu corpo preguiçoso ao toilete em busca de silêncio e conforto - um homem desesperado recorre às piores soluções. foi então que vi; ali, no espelho embassado de tão velho, o que seria o meu futuro. minha imagem refletida em trinta anos seguintes. pobre, velho, sem amigos, sem drogas, sem mulher nem dinheiro, nem mesmo uma caneta para começar meus livros ou anotar as idéias que eu costumo roubar de outras pessoas. nada me pertencia. voltei para cama com os olhos ardendo em ódio, queria mudar o futuro, mas sabia que isso era impossível. certa vez eu soube que uma vez que você olha o futuro, ele muda só porque você olhou. uma bobagem dos cinemas, claro. todos sabem que as coisas que você faz refletem no seu futuro e eu sabia mais do que ninguém que tudo que eu fizesse pra evitar, traria aquilo cada vez mais perto de mim.

(continua)

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