Rua Fernão de Melo, próximo à Igreja Universal, casa de prostituição. É aqui que os desejos se consolidam, homens bons tornam-se maus. Homens felizes se esquecem de sorrir. Mulheres são perdidas, amores largados, vidas são borradas neste local.
Você pode se hospedar em um de nossos aposentos. Infelizmente terá que rezar para não recebermos clientes gays, se não, sua única opção será aceitar e conviver com este tormento. No seu dormitório você encontrará cervejas e cigarros. Camisinhas estão na cabeceira. Não traga amigos, amigas, parentes. Aqui nós somos sua família, mesmo que tu sejas um recém chegado. Não temos telefone. Não há como se comunicar com o seu passado. Paralelo a essa solidão temos muito que desfrutar.
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Saí para respirar um ar mais católico e notei o inferno em que me encontrava. Aqui as ruas são sujas, as pessoas são feias e eu acho que vi corpos mortos perambularem por aí. Devem de ser alucinações. Aqui o sujo e o limpo são a mesma coisa, as pessoas não ligam para estética, são bonitas/feias por natureza. Padres não detêm a palavra de Deus, não há Deus para esse povo. Drogados e prostitutas cruzam o caminho dos sacerdotes do Senhor. Ninguém é amigo ou prestativo, cada um por si e só. Não há Deus por todos. A única música que se ouve é a que está em sua cabeça. O som dos carros e ônibus produz medo nos que só conhecem a pureza de um velotrol. Sim, nós temos crianças aqui. Poucas e sujas, mas mesmo assim puras. Não imagino nenhuma dessas com um futuro promissor, talvez um ou dois consigam morrer antes de verem seus pais assassinados. É quase uma lástima. Sim, quase.
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De volta ao 'hotel' notei que as pessoas ainda não se acostumaram com minha presença, mesmo assim eu as encaro até que notem quem sou. Não faço idéia do porque, mas sempre que encaro uma dessas prostitutas por muito tempo eu me sinto como um demônio fadado a não ter sexo pro resto de sua vida. Ruim, mas aceitável. No corredor que leva ao meu quarto posso ver mulheres de meia-idade pagando boquetes para velhos descompostos. Não deixo de notar adolescentes escondidas por trás de uma maquiagem pesada e traiçoeira. Essas ninfetas enlouquecem os clientes. “Mulheres sofrem por homens. Vadias não sofrem por homens, homens sofrem por vadias." A Magali (Meg) adora dizer essas cousas para encorajar novas meretrizes. Sempre funciona.
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Perto do mercado encontra-se um cemitério, alguns corpos não têm zelador (sim, cada corpo tem um zelador individual) e ficam expostos a todas as pragas quando a terra não os cobre mais. Eu sempre sinto arrepios quando passo por lá.
O senhor que atende na banca de revista é o mesmo que vende pão, que corta a carne no açougue e que varre as ruas da prefeitura. Eu sempre me pergunto se este lugar é uma espécie de anime em que os figurantes são sempre iguais para economizar criatividade e desenho. Eu também penso que este homem é muito funcional ou tem vários irmãos gêmeos. Não sei. Ele sempre canta/assobia algo parecido com "Dançando sobre os corpos flagelados, eu só faço o meu trabalho, eu só faço meu trabalho..."
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Como todo bom endereço, nós também temos os correios por aqui. Claro que temos... Caso contrário eu não escreveria tamanha baboseira. Garbage! You have more garbage in you inbox. E-mails não são mais tão cultuados, aliás, eu nem sei se aqui já se ouviu falar nessas modernidades. Lembro de ter visto uma televisão sem cores num quarto vizinho. Lembro também de um homem procurava as chaves de sua lambreta. As pessoas daqui são interessantes de certos pontos de vista.
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Quer saber como eu me visto? Bem, eu estou usando uma calça jeans, surrada. Uma camiseta preta com alguma estampa em japonês. Calço tênis tamanho 40 de cor avermelhada, quase bronze. Eu estou me sentindo muito bem nesses trajes, mesmo que eu os esteja usando há três dias. Desde que cheguei ainda não tive coragem de passar pela porta do banheiro. Quero dizer, aquele lugar é tão sujo e mal-cheiroso que eu não chego perto da pia, quanto mais ficar nu e esperar que caia água do chuveiro.
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Vou me deitar... Amanhã eu termino de lhe escrever.
(continua.)
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