não tenho coisas bonitas espalhadas no chão do quarto, não tenho coisas bonitas entre os dedos das mãos, entre os dentes, nem dentro da boca. eu não tenho nada bonito no meu peito. não tenho um coração cheio de sangue, não tenho um amor quase perfeito, não tenho a rima apropriada, não ligo para a frase rimada. acho coisa de gente besta essa tal de poesia. sou invisível. mutante. meu humor é como a grama, como o mato, como a cana; é bom, mas é ruim. eu não tenho rancor, não tenho saudades, não tenho vontades. eu não tenho pele.
tenho uma mancha preta que cobre meus ossos e orgãos.
eu não tenho feito coisas bonitas ultimamente.
nada de boas atitudes, bons amigos, bons modos, não me arrumo direito. não cheiro muito bem.
não sou mudo, falo demais, não falo muito o que se aproveite, mas gosto do som da minha voz. eu não agrado a muita gente, não faço questão de ser agradável, não gosto de agrados também, detesto esmola. não nasci pra ser pobre, não sou revolucionário, não sou interessante, não costumo ser bem lembrado. não me dou bem com meus pais. não me relaciono com boas pessoas. não sou exemplo.
mas juro que não gosto de ser assim. quero ser bom, sabe? quero ser legal comigo, com todo mundo. quero ser bonito, atraente, ter um carro, uma casa, um filho, uma cerca branca e um cachorro de pêlo dourado. quero uma mulher sorridente, dedicada e bem vestida. quero botar dinheiro na poupança todos os meses, quero ser promovido, quero ter um emprego digno. e se for pedir muito...
quero não ser (mais) invisível
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