segunda-feira, setembro 01, 2008

“todos os dias ela move-se lentamente em direção à orla. um cigarro torto entre os dedos trêmulos e os cabelos embaraçados caindo sobre os olhos. seus olhos tímidos detêm a verdade do ser, a crueldade do amor e a tristeza do sexo.”

Da primeira vez, pareceu errado, logo depois, tornou-se inconseqüente. Eu queria sempre mais. Mais tempo, mais entorpecentes, mais distorção da realidade. Os minutos passavam lentamente no campus sujo em que nos víamos sempre. Eu implorava pelo seu corpo, seu beijo, cabelo e rosto. Éramos tudo em cigarro, distração, medo e diversão. Éramos medo puro. Pernas trêmulas, mãos trêmulas, lábios trêmulos, palavras secas, boca seca. Mudos, inquietos.

Eu queria aquilo, e como queria. Eu queria estar dentro daquele corpo como ninguém estivera antes, penetrá-la fisicamente, mentalmente, possuí-la em meus braços, dominá-la.
Por mais de mil vezes eu desejei ter feito todas as coisas que planejei antes de dormir, as coisas que eu não tive coragem de dizer para ninguém.

"Todos os dias ela olha para meu rosto com o desprezo natural da sua espécie, ignora o fato de que suplico por seus lábios em mim. A fala arrastada, os seios empinados, o corpo pequeno, os pés praticamente descalços. Ela atrai minha atenção mesmo quando estou nos braços de outra. De outros. Os outros não me querem por perto, posso sentir. Ela não quer a minha presença, também. Percebo minha insignificância e sumo dali."

Da segunda vez, eu não sabia o que fazer. Quis tirar sua roupa em público, violentá-la, ter seu corpo só para mim, apenas para mim, por mais que fosse errado. Quis seus peitos em minhas mãos. E ainda os quero. Nem que por dois segundos, tê-la em meus braços seria o bastante. Preciso disso, preciso mais do que o vinho de manhã. Não contentarei.

"Todos os dias eu imagino como serei capaz de dar um fim nessa história de uma vez por todas. Sei que quer apenas me provocar, me fazer refém dos seus atos insólitos. Sei que quer sair por aí, e contar aos sete ventos, que, dominou meu ser e depois jogou ao chão como brasa apagada."

E eu chegava em casa em estado de choque, sem entender o que se passava em minha cabeça. Não poderia ser possível eu estar em tamanha confusão por causa de uma simples ninfeta. Fiquei horas compondo baladas de amor proibido, procurando nas notas falsas alguma coisa que explicasse o que eu sentia naquele momento. Alguma coisa que nunca pude nomear, mas que eu julgava controlar. Errado. Nunca fui capaz. Até mesmo quando tentei ignorar o fato de estar completamente perdido, enfeitiçado, por mais clichê que soe, até mesmo quando eu jurava estar apenas derramando excitação pelos olhos (em forma de ódio), até mesmo quando jurei para o mundo todo que eu quis matá-la; mesmo aí eu sabia que estava sendo enganado por meu próprio desejo, e que na verdade, tudo o que eu queria era ser notado por sua atenção.

Queria deitar-me com aqueles olhos complexos. Queria beijá-la pelo menos uma vez sem sentir-me culpado. Até quando me dispus a entregar-lhe uma encomenda na porta de casa, fui com a ilusão de que conseguiria mais do que dinheiro. Fui traído. E mesmo assim eu continuava a entrar em desespero ao ouvir seu nome por perto. Colapso.

Surto mais uma vez e digo que não quero nada disso. Não quero teus braços, não quero teus beijos, não quero teu cabelo embaraçado no meu rosto, não quero tuas mãos finas, trêmulas, geladas, não. Não quero teu lábio quase partido, não deitar-me contigo. Não. Eu não quero sofrer depois. Daí a ignorância, o mau-trato. Eu não quero saber do que houve entre nós naqueles dias de excitação recém chegada. Minto. Eu ainda desejo-te em meus mais profundos sonhos. Ainda masturbo o corpo que não é meu pensando em suas pernas e no seu cheiro. Quero a situação que me faz inseguro, quero o silêncio e o vazio dos amantes desconhecidos, quero o crime perfeito na calada da noite. Ainda quero ver/pegar teus seios, deitar-me com você. Quero a morte. Apenas uma vez.

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