quarta-feira, agosto 08, 2007

Falsa idéia de pesadelo (realidade).

Começou.

Primeiro eu vi o beijo seco da boca velha tocando os lábios da mulher feia que não suportava o hálito de cigarro do seu acompanhante. Então veio a companhia do meu lado, uma pessoa desagradável que cheirava a enxofre. Era como um inferno sobre rodas sob o nome de São Marcos.
Então eu vi...
Os velhos cometendo violência, os adultos de meia-idade cometendo violência, as crianças cometendo violência, os cachorros, os pássaros, todos cometiam violência. Não nesta ordem. A violência suja das ruas negras da cidade do Salvador. Então ouvi as pessoas dizerem que o chão estava coberto por piche, betume e asfalto, mas eu só via buracos. Buracos tapados com corpos humanos degradados e esquecidos ao léu.
Eu não estava mais lá. Num segundo o meu corpo viajou pelas galáxias e voltou como um peso de uma tonelada sobre minha mente (e a dor começou). E eu vi que tudo aquilo era banal. As ruas cheias de lojas, as lojas cheias de gente e a gente sorrindo falsidade por todos os cantos da boca. Aquele cheiro ficava mais forte, sempre nas curvas, mas eu já não sabia se era eu ou o cigarro, ou o vizinho. Não importava.

Então eu bebi, fumei, cheirei, bebi mais, cheirei mais, fumei mais e já não estava mais em mim. Eu não estava mais aqui. Não sabia aonde estava porque eu não estava em lugar nenhum. Eu fiquei nulo, invisível, inútil. Fui até o céu, até o inferno, passei pelo limbo e dei de cara com a nostalgia ou coisa que o valha. Dei de cara com a dor, a tristeza, a fé mal acabada e a reza forte.
Então eu voltei, ainda bebendo sangue (vodca) e fumando cigarros (ridícula sensação de estar bem)... Voltei pra onde eu não estava. Era bom estar de volta.

- Você nunca traiu.

Eu bebi mais. Bebi saliva quente com gosto de nicotina, alcatrão e anfetamina. E encontrei nos braços dos bandidos um monte de conforto - se é que isso existe. Eu conheci todos os tipos e já posso dizer que estou pronto para morrer agora.

- Up the line. Never cross the street.

Eu vi negros, brancos, mestiços, surdos, mudos, falsos e míticos; eu vi meus pais, meus irmãos, meus amigos - decapitados ao meio dia, eu vi tudo desde o começo ao fim do dia de ontem. Eu conheci pessoas dos mais variados tipos: eloqüentes, prolixos, fúteis, inúteis, histéricos, concisos, sóbrios, bêbados, viciados, reabilitados, excêntricos, egocêntricos, efusivos, introspectivos, gananciosos, desinteressados, altruístas, mal amados, três mal vestidos, dois homicidas, um suicida e meu próprio reflexo no espelho.

E no final das contas, eu jurava estar dormindo. Seria possível acreditar no que não se viu? Eu sei quem são vocês; mas o que sou eu?

- Up the line. Never cross the street.

4 comentários:

Anônimo disse...

não se vá.

Anônimo disse...

aquele mesmo, o do pau grande.

Clarissa Oliveira disse...

o que somos, afinal?

Louise Vital disse...

bom,
voce é muito mais que um espelho pode mostrar :)
mergulhe dentro de si mesmo (: