terça-feira, julho 17, 2007

For dinner...

Eles estão sempre por perto e eu posso ouvir suas vozes. Dizem-me o quanto é bom estar por baixo, convidam-me para o jantar. Nesta mesa, eu serei o prato, recheado com vísceras de outros homens, que lentamente sucumbiram à escuridão. Perto às placas de sinalização, alguns operários encontram o descanso, sob o Sol forte do meio dia. Daqui eu posso ver os meus dedos se contorcendo e lutando contra o desejo de puxar o gatilho.

Seria muito fácil findar toda uma vida de luxos e regalias em apenas um segundo. Virar notícia sempre atraiu os meus pensamentos, mas nunca me encheu os olhos. De qualquer forma eu nunca saberia o que pensariam do meu ato. Alguns anos entre prédios e executivos fez de mim uma rocha; fria e tensa. Ando tão preocupado em manter-me distraído(para não pensar em você) e bem sucedido(vestido à caráter) que não sinto mais necessidade em tomar antibióticos (apenas drogas de efeito leve ocupam o meu tempo).

Ontem eu pude sentir o chão tremer e abrir-se debaixo de mim. Meus pés sujos entraram em contato com a terra, criaram raízes e então eu estava preso à cidade. Minhas unhas não conseguiram partir as cordas e logo eu me acostumei com a idéia de poder ser apenas mais um obstáculo no meio da rua, algo que atrapalhe os carros como um malabarista de sinal. Aceitar condições fez de mim alguém manipulável.

Opoucodesensatezquemerestadisseparaeuaceitaroconvitedosdegradados.

Faz tanto tempo que estou aqui, que já não lembro mais como voltar para casa. Estas paredes me viram crescer, como árvore, eu as vi cair. Vi acidentes e senti culpa por eles, levei socos e pontapés, abraços e beijos. Fui regado por lágrimas de crianças que não mais verão o céu tão azul. E se por algum acaso tudo isto acabar e eu sobrar? Quem serei eu além de uma peça morta no meio do deserto? Neste momento parece tentador ouvir aquelas vozes, aceitar o convite e sair à mesa como um banquete para os derrotados.

Eu não quero sua piedade, não quero seus remédios, não quero seus conselhos. Desejo, do fundo do peito, que você sinta como é perder o ar lentamente, que você veja suas unhas cair, seus pés incharem, seus olhos hão de ficar cegos, e cedo, você vai ficar mudo, surdo e indefeso. Então, eu serei a faca que cortará seus galhos, a serra que arrancará suas raízes, a loucura que lentamente vai tomando conta do seu corpo e, finalmente, o seu melhor amigo.

Um comentário:

ísis disse...

olha a gota
que estava
ali