sexta-feira, maio 25, 2007

Alex Grey.

Chegou como se nada quisesse, como se estivesse pronto para matar ou morrer. Tomou uns goles d’água, pediu vinho e esperou que a última pessoa saísse daquele lugar degradado, esperou por muito tempo. De alguma forma, sentia-se confortável naquele balcão. Havia tomado apenas um copo de vinho, mais nada, não fumava, parecia ter saúde, não sorria, não falou sequer uma palavra.
Dessa mesma maneira, voltou para casa, sentou-se no sofá, bebeu um pouco mais daquele vinho que trouxera num saco de pão e ligou a TV. A quantidade de canais era inversamente proporcional ao número de coisas interessantes para se assistir e eu acho que foi por isso que resolveu dormir ali, no sofá.

Desde então tudo começou a mudar; o céu não ficava azul por muito tempo, a chuva não caía, os prédios não pareciam impor tanto respeito como antes, o trânsito não incomodava mais, o barulho não era tão alto... enfim, tudo estava mudado. Eu lembro bem daquela época... Os fabricantes de carros estavam felizes com o aumento das vendas (devido ao implante do airbag de segurança nos carros populares), os comerciantes levavam a vida como podiam e as escolas estavam cheias de alunos com vontade de aprender. Não havia desemprego e os criminosos estavam em seus devidos lugares: as celas. Parecia que aquele último copo de vinho havia mudado o mundo, parecia que os canais inúteis da televisão haviam lhe feito uma lavagem cerebral, parecia que estava sonhando, era mesmo muito estranho de saber o que estava acontecendo. Os jornais não diziam nada que confortasse a confusão mental, não havia nenhuma grande novidade aparente, tudo parecia normal e como fora deixado antes de sair de casa.

Minutos depois de acordar; olhar-se no espelho parecia ter sido a pior coisa já feita na sua vida... O rosto estava enrugado, envelhecido, cheio de cicatrizes, os olhos, profundamente abalados, se perdiam pelos arredores do vidro que refletia toda a sala lá atrás. De alguma forma, o que os olhos viam no espelho não era o que estava por toda a parte, e sim uma espécie de universo alternativo no qual havia sido enfiado sabe-se lá como e quando. Tudo estava muito, muito estranho.

Depois de olhar no espelho, notou que tudo havia mudado novamente, dessa vez, para pior. Tudo parecia caótico, as pessoas pareciam estar sempre bêbadas, a cidade parecia ter sido abalada por uma catástrofe ecológica, repleta de árvores brotando do meio do asfalto, prédios semi destruídos, os cães pareciam mandar em seus donos, a cor alaranjada do céu era tentadoramente convidativa a um suicídio e o mais intrigante é que tinha tomado parte dessa situação sem ao menos levantar-se do vaso sanitário o qual havia depositado todo o peso do seu corpo depois do primeiro susto. De uma vista panorâmica, temos um prédio sem paredes, no qual podemos vez todos fazendo suas necessidades, e tendo suas vidas invadidas descarga após descarga. Sem se abalar muito, recompondo-se do susto, levantou do sofá, terminou o vinho e seguiu para o trabalho. Era apenas mais um dia de ressaca, overdose, depressão e pesadelos.



(...)

Era, de uma maneira, tão especial que tudo na sua vida se resumiu a viagens de carro e bons comentários pela vizinhança. Nunca teve muitos amigos, amigas, bichos de estimação, sempre esteve ao lado da própria sombra e a solidão não lhe era incômoda, gostava de gastar, mesmo, notava-se pelas boas gorjetas.

Um comentário:

nai disse...

ai tazzio, muito bom.